Category: Criticism

Faz escuro mas eu canto, um artigo por Washington Dell’Acqua

13/07/2020

Faz escuro mas eu canto

A arte teria o dom da profecia? Ou simplesmente ela se adianta ao seu tempo? Ainda que presa ao tempo e as circunstâncias é libertária, propositiva, incrivelmente indomável. A Bienal de São Paulo, prorrogada para 2021 por conta do isolamento provocado pela Covid 19, acertou na mosca ao escolher o tema geral. Acertar na mosca é ter pontaria. Ser certeiro. A temática escolhida de índole poética e pró-democracia diz “Faz Escuro mas Eu Canto”, verso do poema “Madrugada Camponesa” do amazonense Thiago de Mello, 96 anos.

O projeto curatorial, coordenado pelo ítalo-brasileiro Jacopo Crivelli Visconti, foi escolhido em 2019, antes dos estragos da pandemia e do caos político brasileiro. O hoje/agora sem dúvida  está escuro, nebuloso, indefinível, silencioso, igualitário (mesmo que mais mortal aos pobres). Sem respostas cartesianas, mágicas ou… terraplanistas. Mas o poeta  se opõe ao “escuro” e complementa imediatamente ao seu verso : “eu canto”. Cantar é resistência. O canto rejeita o imobilismo. Talvez ele seja mais audível e afinado aos ouvidos do que o grito. Cantar é reescritura da história.

Passo a escrever neste espaço com o intuito de apresentar o ambiente cultural da  paulistanidade. O que é a paulistanidade?. É ser paulista ou estar paulista nessa cidade multifacetada, cosmopolita, intensa, rica, pobre, feia, contemporânea, estranha e com um pulsante circuito de galerias de arte, centros culturais e museus, como o Museu de Arte de São Paulo (Masp)  dono de fascinante coleção de arte italiana, francesa, de Rembrandt, Tiziano, Van Gogh, arte africana, etc, e artistas brasileiros de projeção como Tarsila do Amaral. A Bienal de São Paulo, que na edição de 2021 tratará do “escuro” e o seu antagonista “eu canto”, já tem parte da lista de artistas definida.

Antes de entrar no assunto, proponho ao leitor descobrir ligeiramente o que é essa bienal que ocupa um grande pavilhão no popular Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A instituição nasceu no projeto de um país que almejava sair da década de 1950 da condição de país agrícola e se firmar industrialmente. Ser o sonhado Brasil pujante. A bienal é reflexo da aristocracia paulista dessa época, principalmente do casal de mecenas italiano-brasileiros Ciccillo Matarazzo e Yolanda Penteado, donos de fabuloso grupo fabril. Um dos objetivos era resgatar o Brasil da “obscuridade” global. Introduzir a modernidade, no rastro da construção de Brasilia, a capital federal no centro geográfico do pais traçada pelo urbanista Lucio Costa e o arquiteto Oscar Niemeyer.

A Bienal cumpriu esse papel. Ela colaborou para jogar luz e glamour artístico sobre o emergente país sul-americano. É a segunda bienal do mundo, atrás apenas da Bienal de Veneza. O ineditismo aqui foi tão grande que ela exibiu a tour de force “Guernica”, de Pablo Picasso. Operação inconcebível hoje: tirar a grande tela do Museu Reina Sofia, em Madri. As 34 edições do evento projetaram o país – mesmo sob o período  da ditadura militar nos anos 1960-70. Dessa forma o público paulista se conecta há sete décadas simultaneamente com o que é exposto  nos  circuitos de Nova York, Londres, Moscou, Toquio, Paris, Buenos Aires, Mexico, Berlim, Cairo, Pretoria, Estocolmo, Pequim, Istambul…

Faz Escuro. O Brasil está no escuro. São Paulo igualmente. O país da bossa nova, dos três fusos horários, de 274 línguas indígenas e litoral de 7,3 mil quilômetros vive na obscuridade. Eclipsado. Sob o incógnito vírus e temores democráticos. O que não se vê se deduz. A arte a ser exposta na Bienal sugere solfejos. Uma das notas musicais de potencia sideral extrema poderia ser representada por um heroico e perene meteorito. Exato. É isso mesmo.

O meteorito Bendengó. O objeto espacial vindo do desconhecido e sob brutais ataques de forças cósmicas foi encontrado no sertão da Bahia em 1784. No Nordeste do país. Transportado por pesquisadores em 1888 passou a integrar o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Estava no hall do prédio neoclássico, antiga residência do Império português. Em 2018 a instituição sofreu devastador incêndio. Dezoito milhões de itens históricos e científicos desapareceram. Bendengó suportou o fogo e encontrado entre os escombros. Ele é o símbolo, um obelisco de formas abstratas de ressurgimento do museu.

Bendengó, o 16º maior meteorito do mundo, deverá estar temporariamente na Bienal e resignificar a arte produzida por um conjunto de artistas de várias nacionalidades. Em torno de sua “luminosidade”, obras cantantes (afinadas ou não, audíveis ou não).

Outro ponto de convergência artística da próxima Bienal paulista é o abolicionista negro norte-americano Frederick Douglass (1818-1895). Ele é o primeiro cidadão afro norte-americano a ocupar cargo de alto escalão. Seu discurso de 1841, em convenção anti escravagista descreve sua experiência de escravo.

A fala contundente e perfeitamente construída virou hino pela igualdade, canto contra a obscuridade racista. Douglass fundou jornal, foi conselheiro de Abraham Lincoln. Emergiu como a pessoa mais retratada no século 19. Seus autorretratos, realizados desde os 23 anos, rompem o estabelecido. Fotografia é autoconfiança, dizia o escritor. As imagens evocam o olho no olho. Está escuro. Mas o corajoso Douglass vê o aqui e o além das fronteiras da ignorância. Sua performance fotográfica não é datada e estabelece diálogos atuais. Black lives matter.

Faz escuro. Mas um desgastado sino de 1750 terá outra jornada de glória na Bienal. Trata-se de um sino instalado numa capela na cidade barroca de Ouro Preto, no interior de Minas Gerais. O instrumento musical-religioso foi tocado às escondidas após o enforcamento de Joaquim José da Silva Xavier, chamado Tiradentes (1746-1792), ícone da luta da independência do Brasil de Portugal. O sino “subversivo” voltou a tocar em 1960 na inauguração de Brasília, quatro ano depois centro de poder ditatorial. Talvez não seja tocado na Bienal. Porque faz escuro. Mas a arte badala e dá seus sinais e pode estar mais viva do que nunca. Aqui e por qualquer outro quadrante.

34ª Bienal de São Paulo – de 4 de setembro a 5 de dezembro de 2021

 

Biografia

Washington Dell’Acqua é jornalista e produz desenhos. Atuou em jornais, revistas, sites e em museus de São Paulo. Especializado em artes visuais, cobriu edições das Bienais de São Paulo, Veneza e Documenta de Kassel. Escreveu colunas de artes. Expôs produção artística em coletivas nos anos 1990 e 2000.

Al Alvarez, British critic and author who championed poetry and poker, dies at 90

Author and critic Al Alvarez in 2007. (Writer Pictures/AP)

Harrison Smith writes:

Al Alvarez, a British poet, critic and best-selling author who championed the work of Sylvia Plath and Ted Hughes, wrote a provocative study of suicide and explored his own risky pastimes in books about rock climbing and professional poker, died Sept. 23 in London. He was 90.

The cause was viral pneumonia, said his literary agency, Aitken Alexander Associates.

Mr. Alvarez, who sometimes wrote under the name A. Alvarez, cultivated a reputation as a swashbuckling adrenaline seeker as well as an accomplished poet, novelist and literary critic. Finding writing to be “a solitary, joyless occupation,” he sought escape through mountaineering, boxing, poker and aviation, then drew on his hobbies for articles in the New Yorker and several books of nonfiction.

Initially, he was known for his adventurous taste in poetry and his literary attacks on the “genteel” style that dominated British poetry in the years after World War II.